A Primeira Guerra Mundial (1914-1918)

Prof. Leonardo Castro



No final do século XIX, o mundo se sujeitava à supremacia econômica das potências européias, sobretudo a Inglaterra. Surgiam, entretanto, outras como os alemães e norte-americanos.

Quando a França foi derrotada em 1870 (Guerra Franco-Prussiana), houve o despertar de um espírito nacionalista, de revanche. Ao mesmo tempo, surgia a rivalidade da Inglaterra com relação à Alemanha, pois esta colocava em risco a supremacia inglesa.

Em 1882, o Segundo Reich alemão firmou a Tríplice Aliança, unindo-se ao Império Austro-Húngaro e à Itália.


As alianças antes da Primeira Guerra Mundial. The times Atlas of World. Times Book. 1990.


Em 1907, a Rússia se aliou à França e à Inglaterra, formando a Tríplice Entente. Passavam a existir na Europa dois grandes blocos antagônicos – a Tríplice Aliança e a Tríplice Entente –, que levaram os países europeus aos preparativos armamentistas.




O armamentismo e rivalidade bélica entre o Reino Unido e a Alemanha. Charge, 1910.



O impasse criado pelos interesses capitalistas, pelo imperialismo e pelo nacionalismo conduziram o mundo à Primeira Guerra Mundial (1914-1918) e à desestruturação do capitalismo internacional.



A Primeira Guerra Mundial (também conhecida como Grande Guerra antes de 1939 ou Guerra das Guerras) foi um conflito mundial ocorrido entre Agosto de 1914 e 11 de Novembro de 1918.

A Questão Balcânica colocou em campos opostos os países da Tríplice Aliança e a Tríplice Entente. A intervenção imperialista internacional na região e as lutas nacionalistas dos diversos povos geraram crises locais e internacionais.

A Rússia defendia o pan-eslavismo, pretendendo unificar os eslavos balcânicos, libertando-os do Império Turco. Os russos, entretanto, encontravam resistência do Império Austro-Húngaro, protetor do Império Turco, e da Alemanha que pretendia construir a estrada de ferro Berlim-Bagdá, barrando a descida russa para o sul, e permitindo o acesso alemão as áreas petrolíferas do golfo Pérsico.

A Sérvia encabeçou o movimento pan-eslavista, buscando a independência do domínio turco e idealizando a construção da Grande Sérvia. Em 1908, a Áustria anexou as regiões eslavas da Bósnia e Herzegovina. A Sérvia passou a fomentar agitações nacionalistas na região.





Texto e Contexto


Em 23 de junho de 1914, o Império Austro-Húngaro publica uma Nota à Sérvia, que demonstra o ambiente sócio-político conflitante entre as duas nações e a própria política imperialista da Áustria-Hungria:

“O Governo Real condena a propaganda dirigida contra a Austro-Hungria, isto é, o conjunto das tendências que visam, em última análise, a desligar da Monarquia austro-húngara os territórios que dela fazem parte, e lamenta sinceramente as conseqüências funestas desses comportamentos criminosos (...)

O Governo Real compromete-se também:

1.º. A suprimir toda publicação que possa excitar o ódio ou o desprezo da Monarquia e cuja tendência geral é dirigida contra a sua integridade territorial.
2.º. A dissolver imediatamente a sociedade chamada ‘Norodna Odbrana’ (Mão Negra).
3.º. A eliminar, sem demora, da instrução pública na Sérvia, tanto no que diz respeito ao corpo docente como aos meios de instrução, tudo aquilo que serve ou pudesse servir para fomentar a propaganda contra a Austro-Hungria.”
(Citado em MATTOSO, Kátia. Textos e documentos para o estudo de história contemporânea, 1789-1965. São Paulo: Hucitec; Edusp, 1997. p. 155.)



Em 1914, Francisco Ferdinando, herdeiro do trono austro-húngaro, viajou a região para esfriar os ânimos. Entretanto, os sérvios planejaram um atentado através da organização Mão Negra. Em 28 de julho de 1914, Gravilo Princip matou a tiros Francisco Ferdinando e sua esposa.

Em 1º de agosto a Áustria declarou guerra à Sérvia. A Rússia posicionou-se a favor da Sériva, ativando o sistema de alianças, com a entrada da Alemanha, França e Inglaterra no conflito.





O Início dos Confrontos


Após o assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando em 28 de Junho, o Império Austro-Húngaro esperou três semanas antes de decidir tomar um curso de ação.

Em 26 de Julho, o Império Austro-Húngaro cortou todas as relações diplomáticas com o país e declarou guerra ao mesmo em 28 de Julho, começando o bombardeio à Belgrado (capital sérvia) em 29 de Julho. No dia seguinte, a Rússia, que sempre tinha sido uma aliada da Sérvia, deu a ordem de locomoção a suas tropas. Os alemães, que tinham garantido o apoio ao Império Austro-Húngaro no caso de uma eventual guerra mandaram um ultimato ao governo russo para parar a mobilização de tropas dentro de 12 horas, no dia 31. No primeira dia de Agosto o ultimato tinha expirado sem qualquer reação russa. A Alemanha então declarou guerra a ela. Em 2 de Agosto a Alemanha ocupou Luxemburgo, como o passo inicial da invasão à Bélgica e do Plano Schlieffen (que previa a invasão da França e da Rússia). A Alemanha tinha enviado outro ultimato, dessa vez à Bélgica, requisitando a livre passagem do exército alemão rumo à França. Como tal pedido foi recusado, foi-se declarado guerra à Bélgica.

Caricatura francesa do Kaiser Wilhelm II da Alemanha tentando comer o mundo, mas parece “muito duro”. Aprox. 1915.


Em 3 de Agosto a Alemanha declarou guerra a França, e no dia seguinte invadiu a Bélgica. Tal ato, violando a soberania belga - que Grã-Bretanha, França e a própria Alemanha estavam comprometidos a garantir fez com que o Império Britânico saísse de sua posição neutra e declarasse guerra à Alemanha em 4 de Agosto.

Recrutamento de britânicos para a guerra, a exemplo da onda nacionalista que varria o continente.


Algumas das primeiras hostilidades de guerra ocorreram no continente africano e no Oceano Pacífico, nas colônias e territórios das nações européias. Em Agosto de 1914 um combinado da França e do Império Britânico invadiu o protetorado alemão da Togoland, no Togo. Pouco depois, em 10 de Agosto, as forças alemães baseadas na Namíbia atacaram a África do Sul, que pertencia ao Império Britânico.



A Guerra das Trincheiras


A Primeira Guerra Mundial foi uma mistura de tecnologia do século XX com tácticas do século XIX.

Muitos dos combates durante a guerra envolveram a guerra das trincheiras, onde milhares de soldados por vezes morriam só para ganhar um metro de terra. Muitas das batalhas mais sangrentas da história ocorreram durante a Primeira Guerra Mundial. Tais batalhas incluiam Ypres, Vimy Ridge, Marne, Cambrai, Somme, Verdun, e de Gallipoli. A artilharia foi a responsável pelo maior número de baixas durante a guerra.




Nas trincheiras - Infantaria com mascáras de gás, Ypres, Bélgica, 1917.



Texto e Contexto

Capitão Edwin Gerard Venning, França

“Ainda estou atolado nesta trincheira. Não me lavei, nem mesmo cheguei a tirar a roupa, e a média de sono, a cada 24 horas, tem sido de duas horas e meia. Não creio que já tenhamos começado a rastejar como animais, mas não acredito que me tivesse dado conta se já houvesse começado: é uma questão de somenos.”


Rudolf Blinding, que serviu numa das divisões da Jungdeutschland

“O campo de batalha é terrível. Há um cheiro azedo, pesado e penetrante de cadáveres. Homens que foram mortos no último outubro estão meio afundados no pântano (...) As pernas de um soldado inglês irrompem de uma trincheira, o corpo está empilhado com outros; um soldado apoia seu rifle sobre eles. Um pequeno veio de água corre através da trincheira, e todo mundo usa a água para beber e se lavar; é a única água disponível. Nínguém se importa com o inglês pálido que apodrece alguns passos adiante. No cemitério de Langemark os restos de uma matança foram empilhados e os mortos ficaram acima do nível do chão. As bombas alemãs, caindo sobre o cemitério, provocaram uma horrível ressurreição. Num determinado momento eu vi 22 cavalos mortos, ainda com os arreios. Gado e porcos jaziam em cima, meio apodrecidos. Avenidas rasgadas no solo, inúmeras crateras nas estradas e nos campos.”
(In: ROBERTS, J. M. História do século XX. São Paulo: Abril, 1974. pp. 796, 953, 960, 961.).



Tecnologia militar


Os avanços na tecnologia militar significaram na prática um poder de fogo defensivo mais poderoso que as capacidades ofensivas, tornando a guerra extremamente mortífera. O arame farpado era um constante obstáculo para os avanços da infantaria; a artilharia, muito mais letal que no século XIX, armada com poderosas metralhadoras.

Tanque de guerra britânico Mark II tank No. 799, capturado pelos Alemães em Bullecourt, próximo a Arras, durante a Primeira Guerra Mundial, em 11 de abril de 1917.

Navio britânico HMS Dreadnought, símbolo da corrida armamentista, 1906.



A guerra química e o bombardeamento aéreo foram utilizados pela primeira vez em massa na Primeira Guerra Mundial. Ambos tinham sido tornados ilegais após a Convenção Hague de 1907.

Os alemães começaram a usar gás tóxico em 1915, e logo depois, ambos os lados usavam da mesma estratégia. Nenhum dos lados ganhou a guerra pelo uso de tal artíficio, mas eles tornaram a vida nas trincheiras ainda mais miserável tornando-se um dos mais temidos e lembrados horrores de guerra.

Os aviões foram utilizados pela primeira vez com fins militares durante a Primeira Guerra Mundial. Inicialmente a sua utilização consistia principalmente em missões de reconhecimento, embora tenha depois se expandido para ataque ar-terra e atividades ar-ar, como caças. Foram desenvolvidos bombardeiros estratégicos principalmente pelos alemães e pelos britânicos, já tendo os alemães utilizado Zeppelins para bombardeamento aéreo.



O Fim da Guerra

A partir de 1917 a situação começou a alterar-se, quer com a entrada em cena de novos meios, como o carro de combate e a aviação militar, quer com a chegada ao teatro de operações europeu das forças norte-americanas ou a substituição de comandantes por outros com nova visão da guerra e das tácticas e estratégias mais adequadas; lançam-se, de um lado e de outro, grandes ofensivas, que causam profundas alterações no desenho da frente, acabando por colocar as tropas alemãs na defensiva e levando por fim à sua derrota. É verdade que a Alemanha adquire ainda algum fôlego quando a revolução se instala no Império Russo e o governo bolchevista, chefiado por Lênin, prontamente assina a paz sem condições, assim anulando a frente leste, mas essa circunstância não será suficiente para evitar a derrocada. O armistício que põe fim à guerra é assinado a 11 de Novembro de 1918. Às 11h do 11º dia do 11 mês

A Primeira Guerra Mundial foi um confronto bélico sem precedentes, envolvendo todas as grandes potências, resultando numa completa mobilização econômica e militar.




Texto e Contexto

Em 1929, o romancista alemão Erich Maria Remarque (1898-1970), publica Nada de novo no front (Im Westen Nichts Neues), o livro mais conhecido sobre a Primeira Guerra Mundial e que se tornou best-seller mundial. Escrito por um homem que serviu no exército alemão, na dedicatória Remarque, volta-se para as gerações futuras dizendo: “Este livro não pretende ser um libelo nem uma confissão, e menos ainda uma aventura, pois a morte não é uma aventura para aqueles que se deparam face a face com ela. Apenas procura mostrar o que foi uma geração de homens que, mesmo tendo escapado às granadas, foram destruídos pela guerra.”


“Estamos no outono. Dos veteranos, já não há muitos. Sou o último dos sete colegas de turma que vieram para cá.
Todos falam de paz e armistício. Todos esperam. Se for outra decepção, eles vão-se desmoronar. As esperanças são muito fortes; é impossível destruí-las sem uma reação brutal. — Se não houver paz, então haverá revolução.
Tenho catorze dias de licença, porque engoli um pouco de gás. Num pequeno jardim, fico sentado o dia inteiro ao sol. O armistício virá em breve, até eu já acredito agora. Então iremos para casa.
(...) Levanto-me.
Estou muito tranqüilo. Que venham os meses e os anos, não conseguirão tirar nada de mim, não podem tirar-me mais nada. Estou tão só e sem esperança que posso enfrentá-los sem medo. A vida, que me arrastou por todos estes anos, eu ainda a tenho nas mãos e nos olhos. Se a venci, não sei. Mas enquanto existir dentro de mim — queira ou não esta força que em mim reside e que se chama “Eu” — ela procurará seu próprio caminho.
Tombou morto em outubro de 1918, num dia tão tranqüilo em toda a linha de frente, que o comunicado se limitou a uma frase: “Nada de novo no front”.
Caiu de bruços, e ficou estendido, como se estivesse dormindo. Quando alguém o virou, viu-se que ele não devia ter sofrido muito. Tinha no rosto uma expressão tão serena, que quase parecia estar satisfeito de ter terminado assim.”
(REMARQUE, Ercih Maria. Nada de Novo no Front. Trad. Helen Rumjanek. São Paulo: Abril S.A. Cultural e Industrial, 1974. (Coleção Clássicos Modernos). pp. 234-35.)


Terminada as operações militares, foi feito o Tratado de Versalhes, que considerava a Alemanha a culpada da guerra, criando determinações para enfraquecer e desmilitarizar o país. A devolução da Alsácia-Lorena para a França, a perda de suas colônias, a indenização as potências aliadas pelos danos causados.




Tratado de Versalhes


Artigo 159 – As forças militares alemães serão desmobilizadas e reduzidas como se prescreve adiante.

Artigo 160 – Numa data que não deve ser posterior a 31 de março de 1920, o Exército Alemão não deve compreender mais que sete divisões de infantaria e três divisões de cavalaria.
Depois daquela data, o número total de efetivos no Exército dos Estados que constituem a Alemanha, não deve exceder de cem mil homens...

Artigo 198 – As forças armadas da Alemanha não devem incluir quaisquer forças militares ou navais...

Artigo 231 – Os Governos Aliados e Associados afirmam e a Alemanha aceita a sua responsabilidade e de seus Aliados por ter causado todas as perdas e prejuízos a que os Aliados e Governos Associados e seus membros foram sujeitos como uma conseqüência da guerra, imposta a eles pela agressão da Alemanha e de seus aliados.

Artigo 232 – Os Governos Aliados e Associados reconhecem que os recursos da Alemanha não são adequados, depois de levar em conta as diminuições permanentes desses recursos, que resultarão de outros itens deste Tratado, para realizar a indenização completa por todas essas perdas e danos.
(FENTON, Edwin. 32 Problemas na História Universal. São Paulo: Edart, 1995. pp. 134-135.)






Texto Complementar



Muitos historiadores tem chamado a atenção para a atmosfera que por toda a Europa em 1914 promovia uma mentalidade bélica, e para a excitação gerada pela declaração de guerra. Em agosto de 1914, os jovens clamavam por serem convocados. Não só na Alemanha, mas também na Grã-Bretanha, na França e na Rússia, considerava-se que a guerra oferecia uma fuga pitoresca de uma vida aborrecida, dando oportunidade ao heroísmo individual e aos atos de rebelde bravura.

As teorias da evolução e as noções populares a respeito da sobrevivência dos mais aptos derramavam-se sobre o pensamento nacionalista. Os países precisavam expandir sua influência, ou entrariam em decadência. (...) Havia uma competição aguda entre todas as grandes potências européias pela influência e domínio sobre o mundomenos civilizado, por motivos tanto políticos quanto econômicos.

Os países entraram em guerra porque acreditavam que podiam conseguir melhores resultados por meio da guerra do que por negociações diplomáticas,e achavam que, se permanecessem de fora, seu status de grandes potências seria gravemente abalado. Esse foi seu maior equivoco.
(HENING, Ruth. As origens da Primeira Guerra Mundial. São Paulo: Ática, 1991. pp. 65-70.)




Os estragos da Primeira Guerra



A primeira Guerra Mundial, anunciada como a “guerra para terminar com as guerras”, além de preparar conflitos posteriores ainda mais graves, deixou fixa a imagem de devastaçõese morticínios. Perto de treze milhões foram mortos e vinte milhões feridos. As despesas bélicas não apresentam termo de comparação com as das guerras precedentes e as devastações infligidas aos países, em cujos territórios se desenvolveram as operações ou devido à campanha submarina, alcançam números vertiginosos. Levando em conta a alta dos preços, o custo total do conflito representa 30% da riqueza nacional francesa, 22% da alemã, 32% da inglesa, 26% da italiana e 9% da americana.
(CROUZET, Maurice. História geral das Civilizações. São Paulo: Difel, 1975. V. 15. p. 45.)

9 comentários:

  1. Adorei !!! Estâo de parabéns !!!

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  2. tenho 12 anos e adorei o artigo. Me ajudou muito mesmo a fazer um trabalho de história e a estudar pra prova. muitas coisas escritas aqui, não tem no meu livro e muitos detalhes como um pedaço livro "Nada de novo no front" me ajudaram a entender e compreender melhor o conceito da 1ª Guerra, que é tão complexa. É por isso que eu peço muito obrigada pela ajuda.

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  3. tudio beiem mí nombre és carla tinido 14 anitos e adurei sune blog,jós estamos estudiandioa pimeiira guieerra mundiale...parabeim pero blog....

    bjitosss bjitoss CARLA

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  4. poxa esse blog é dez!!!!!!!! me ajudou mt no dia da minha prova!!!!!amei!!!
    bjks da claudinha
    ha e me add no orkut:claudinha_pop.roro@live.com
    ou msn:claudinha-bol.galdinosoares@hotmail.com

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  5. Meu você é muito esperto caramba parabens ^^

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  6. Muito bom. Parabéns, me ajudou e muuuuito esse post. Complementou os meus estudos sobre a Primeira Guerra Mundial :D

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